O início da vontade de contar como era meu relacionamento com Papai veio logo depois de sua morte.
Lembrar fatos interessantes, atitudes especiais de Papai...
Imaginei juntar a família num dia, Mamãe e todos os irmãos e buscar as memórias e contar-lhes como eu vi Papai. Provavelmente diferentemente de todos, eu era o mais velho, estive muito tempo com ele e ele esteve presente em todos os momentos importantes da minha vida. Sem exceção. Às vezes como se adivinhasse que eu precisava de um "toque"...
O difícil era juntar todo mundo. Até hoje não sei se já estivemos todos juntos em alguma comemoração, festa ou simplesmente em casa. Família grande é isso.
Também não sei se num evento destes - e tivemos muitos - haveria clima para começar a conversar sobre ele...
O fato é que sempre penso nele e penso muito nele.
Não ter filhos, o meu caso, deixa muito tempo livre e a mente pode se fixar no que importa e no que tem valor...sem interrupções.
Finalmente hoje começo. A idéia deste blog veio há meses. Uma coisa puxa a outra. Não pensei que o faria em blog. Nosso amigo Luís Sérgio Lima e Silva criou um blog dele e lá estava uma parte dedicada à Urca e à polêmica instalação de um IED sem os devidos amparos legais. Ele me pediu que lesse e acrescentasse alguma coisa. Logo depois o Paulo Monnerat, vizinho e amigo, amigo da Aninha, ex-IBMista como eu e companheiro das corridas de kart, fez um blog sobre o Camaro 74 que comprara de mim. De repente veio a idéia de que o blog seria o melhor canal. Aberto. Acrescentável. Passo a passo. História a história...
Hoje é sábado 25 de julho. Chovisca, está bem frio para o Rio, Aninha, Miguinho e eu estamos sentados na cama enquanto uma das Missões Impossíveis passa no DVD. Acabamos dormindo... e ao acordar, novamente pensando em Papai e na cena que mais me vem à mente, resolvi começar o blog.
Fiz questão de só escrever quando sentisse. Na maioria das vezes nem comecei porque preferi ficar com as lembranças do que parar de tê-las e escrever. Agora as condições são ótimas. O notebook já estava ligado e a um metro de mim.
A imagem que vem em primeiro lugar, que antecede as outras, é da mão do Papai.
Mão bonita, segura. O que de fato vejo é sua mão segurando a minha.
Esta mão é aquela que me segurava com firmeza ao atravessar a rua e que via constantemente na direção do Cadillac. Afinal eu tinha o privilégio de ir na frente e sentar-me junto a ele. O Cadillac, automático, tinha os controles na coluna de direção. Seu banco enorme e inteiriço permitia esta proximidade, até porque naquela época nem se ouvia falar em cinto de segurança.
A mão que segurava a minha era a que tinha o anel de Engenheiro. Nunca tirou este anel de grau. A pedra azul escura e os simbolinhos nas laterais ornavam-na. E as costas da mão tinham veias ligeiramente salientes, intensas e davam a segurança necessária.
A mão que segurava a minha eu a via saindo de uma caminha de manga comprida branca, elegante. Como ele era elegante! Nesta hora imagino-o como na solenidade em que recebeu o Mérito Aeronáutico!
Curioso como esta cena se mistura. Não era só eu como criança vendo a mão dele... era eu mais velho também, a mesma mão, a mesma segurança.
Por que esta imagem da mão eu não sei. O que eu sei é que com sua morte uma espécie de proteção para o que desse e viesse se foi. Não tem mais ninguém cuidando de mim paternalmente... Ainda bem que tem a Mamãe. Mas ele era o provedor.
Não tem mais um dos dois a quem eu podia contar sobre as viagens e sobre tudo o mais...
Também é um lembrete de que agora será a nossa vez de ir embora para sempre.
Mas não é este tipo talvez triste de pensamento que a lembrança de sua mão traz não.
Traz mesmo é a certeza de que tudo que ele fez por mim me permitiu ter a segurança emocional, intelectual, espiritual e financeira que tenho hoje. E ele continua segurando a minha mão como eu continuo segurando a dele!
sábado, 25 de julho de 2009
QUISISANA ( Qui si sana - quisissana)
Este era o nome de nossa casa de campo em Petrópolis. Era na estrada, km 44?, depois de uma curva fechada. A curva era em volta da casa.
O que me lembro é que passávamos lá as férias, as grandes e as pequenas.
Íamos com o Cadillac, motor V8, potente, onde todos cabíamos muito bem.
Na época acho que era um Coupé de Ville 1950, azul claro com o teto branco. Hidramático. Mamãe tinha também o carro dela, um carro inglês, um Morris cinza perolizado que ela guiava muito bem...
(O que me lembro deste Morris é que ele dava defeitos. Acabou tendo uma bomba elétrica de gasolina instalada e tudo se resolveu.) O mecânico e amigo do papai era o Walter Garaventa, tão bom que anos mais tarde seria o representante mecânico da Rolls Royce no Brasil.
Como é quase no topo da serra era comum o tempo fechado, neblina (ou russo, como falávamos).
No verão tempestades fortes com raios caindo a torto e a direito...
O que mais me lembra Papai no Quisissana é que ele se sacrificava por nós. Porque descia ao Rio todos os dias de manhã cedo, para trabalhar no Ministério da Aeronáutica.
Quando eu era bem pequeno ele descia e subia de "clipper" que eram uma espécie de táxi especial da época. Eram da marca Nash e como Papai sempre chegava sem atrasos hoje me admiro que aqueles carros aguentássem a subida da serra (que era de mão dupla e cheia de caminhões moles).
Depois ele ia e voltava de ônibus, que ele chamava de "bonitgostosão"). Eram da Única, americanos, carroceria marca Flxible, assim mesmo sem o "e". Na época eram os melhores ônibus. O motor ficava na traseira arredondada, que tinha a tomada de ar em cima. De frente era lindo, com 2 faróis de cada lado. As janelas eram em forma de paralelogramo, meio inclinadas. Sempre que ele nos levava para viajar com ele era uma coisa! Pelo que me lembro hoje, eles pareciam aviões por dentro.
Mas Papai chegava de noite e quase a gente não o via. Porque o Quisissana tinha luzinhas no portão. Mas só lá. E a estrada era escura, iluminada pelos faróis dos veículos ocasionalmente. Ocasionalmente mesmo, porque em 1952, 54... não havia quase trânsito naquela estrada.
Quando ele chegava (e a gente sabia pelo barulho do "gostosão" acelerando) íamos para a janela vendo seu vulto de terno e gravata E a inseparável pastinha se aproximar.
Quase sempre ele trazia algumas balinhas ou biscoitos que eram dados no "clipper" ou no Única.
Beijava a Mamãe e jantava com a gente.
Nos fins de semana ele não era de muita agitação. Vez por outra ia a Petrópolis e lá nos comprava caramelos no D'ângelo. Lia o jornal todas as manhãs. Ficava sentado ao ar livre quando o tempo o permitia.
E deve ter sido dele que alguns de nós pegamos habilidades práticas. Porque quase sempre era ele que resolvia problemas de eletricidade e de hidráulica. Tinha ferramentas e as sabia usar.
Bons tempos aqueles, um mundo só nosso, e Mamãe e Papai para cuidar da gente!
O que me lembro é que passávamos lá as férias, as grandes e as pequenas.
Íamos com o Cadillac, motor V8, potente, onde todos cabíamos muito bem.
Na época acho que era um Coupé de Ville 1950, azul claro com o teto branco. Hidramático. Mamãe tinha também o carro dela, um carro inglês, um Morris cinza perolizado que ela guiava muito bem...
(O que me lembro deste Morris é que ele dava defeitos. Acabou tendo uma bomba elétrica de gasolina instalada e tudo se resolveu.) O mecânico e amigo do papai era o Walter Garaventa, tão bom que anos mais tarde seria o representante mecânico da Rolls Royce no Brasil.
Como é quase no topo da serra era comum o tempo fechado, neblina (ou russo, como falávamos).
No verão tempestades fortes com raios caindo a torto e a direito...
O que mais me lembra Papai no Quisissana é que ele se sacrificava por nós. Porque descia ao Rio todos os dias de manhã cedo, para trabalhar no Ministério da Aeronáutica.
Quando eu era bem pequeno ele descia e subia de "clipper" que eram uma espécie de táxi especial da época. Eram da marca Nash e como Papai sempre chegava sem atrasos hoje me admiro que aqueles carros aguentássem a subida da serra (que era de mão dupla e cheia de caminhões moles).
Depois ele ia e voltava de ônibus, que ele chamava de "bonitgostosão"). Eram da Única, americanos, carroceria marca Flxible, assim mesmo sem o "e". Na época eram os melhores ônibus. O motor ficava na traseira arredondada, que tinha a tomada de ar em cima. De frente era lindo, com 2 faróis de cada lado. As janelas eram em forma de paralelogramo, meio inclinadas. Sempre que ele nos levava para viajar com ele era uma coisa! Pelo que me lembro hoje, eles pareciam aviões por dentro.
Mas Papai chegava de noite e quase a gente não o via. Porque o Quisissana tinha luzinhas no portão. Mas só lá. E a estrada era escura, iluminada pelos faróis dos veículos ocasionalmente. Ocasionalmente mesmo, porque em 1952, 54... não havia quase trânsito naquela estrada.
Quando ele chegava (e a gente sabia pelo barulho do "gostosão" acelerando) íamos para a janela vendo seu vulto de terno e gravata E a inseparável pastinha se aproximar.
Quase sempre ele trazia algumas balinhas ou biscoitos que eram dados no "clipper" ou no Única.
Beijava a Mamãe e jantava com a gente.
Nos fins de semana ele não era de muita agitação. Vez por outra ia a Petrópolis e lá nos comprava caramelos no D'ângelo. Lia o jornal todas as manhãs. Ficava sentado ao ar livre quando o tempo o permitia.
E deve ter sido dele que alguns de nós pegamos habilidades práticas. Porque quase sempre era ele que resolvia problemas de eletricidade e de hidráulica. Tinha ferramentas e as sabia usar.
Bons tempos aqueles, um mundo só nosso, e Mamãe e Papai para cuidar da gente!
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